Meus pés aterrados sentiam tremer o chão da arquitetura sacro restauro-instaurada. O seminário ressignificado. O órgão eletrônico – traços de uma colonização voraz e fiel – era o som corporeificado, jesuíta catequista em uma nova igreja, impondo seus próprios timbres em uma ameaça súbita de derrubar tudo, transformar em mais uma ruína. Nossa Senhora entoava o canto ode, o canto réplica, o canto repulsa, o canto castrador, que hipnotizava, que sustava o tempo. Tempo suspenso e refletido pelos vitrais da capela, que recebem a unção e a devolvem – assim como nós.

Orlandx entra triunfal, lânguidx e lamacentx, como um animal caçado/caçador. Ocupa o espaço templo, divide o ambiente cenário, atrai o público ao mesmo tempo que o repele. As pessoas x amam e rejeitam, numa única sensação fusão, mas unaninemente se encantam, num fervor tão ardoroso que a energia tremuleia por dentro, e se mescla à nuvem vermelha de fumaça que não se dissipou e condensou no ar, num bloco maciço, como quem não quer se deixar romper, contrariando as leis de sua natureza – como orlandx.

Em meio à floresta artificial, oculta pela organicidade fake de todo o ambiente natural sagrado, Elisabeth é revelada, aos poucos, é capinada e sua terra fértil banha o chão por onde pisara Orlandx. Ela agora acolhe e é acolhida, instaura seu poder monárquico, mostra sua potência Isabelina. Orlandx flui, Orlandx escorre, ama e abandona, num ritual de passagem – ritual do abandono, que congela o eterno de Dona Isabel – imortalizada como Dorian Gray. Orlandx a pinta como supunha ser, e Isabel cai, enquanto elx triunfa na dança tropical – que homenageia e desdenha. Yma Sumac nos ecoa.

E o público nos segue, como hipnotizados pelos encantadores de cobra. Nos segue voraz e fielmente, até o último segundo, onde estouram em aplausos atônitos e assustados, tocados, horrorizados, mitificados, dividindo a energia que expandia e ecoava pela arquitetura antiga, pelo seminário, pela instituição sacro-educativa-governamental.

Orlandx chora.

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