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ORLANDX[é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais.
Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira fórma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza o meu olhar – sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu!
Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras.]

O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano

Zé Limeira

a ação

Festa cigana ao redor da estátua do Marechal Floriano Peixoto, localizada na praça Tiradentes, Curitiba-PR, na segunda-feira dia 15 de agosto de 2011. Inaugurar o Memorial da Imigração Cigana transformando o Marechal de Ferro em Santa Sarah.

Construímos nossxs ciganxs pessoais, misteriosxs e transexualizadxs, a partir de elementos de figurinos, músicas e vídeos. Fizemos uma festa, não uma peregrinação. Caminhamos com a cachorra Susanita até a praça onde o Marechal de Ferro nos espera há mais de um século, para transfigurar através da interação o seu sedentarismo. Em troca dessa tentativa de contato, vivemos a experiência da expulsão que marca a história cigana.

– É conspurcação. Você sabe o que é conspurcação.
– Não sei não. O que é?
– É tudo aquilo que não é pichação.

Utilizamos um spray de espuma/neve artificial (comprada em casas de festas, ela não mancha, nem depreda o patrimônio histórico. Facilmente removível, evapora naturalmente em poucos minutos) como instrumento para a transfiguração da imagem do “consolidador da República”. Agora branco é o seu rosto, como era a parcela da população para quem Floriano Peixoto governou. A operação de branqueamento dos heróis nacionais foi levada a cabo pelos retratistas do ancestral ditador: é notável o contraste entre suas fotografias e pinturas. No entanto, o performer Guilherme fez isso porque teve vontade. O que promoveu foi uma desfiguração momentânea da imagem e uma intervenção direta no corpo de aço.

abordagem policial

Vivemos um momento histórico em que as manifestações em ruas e espaços públicos são crescentemente controladas pelo Estado, e o direito à livre expressão é desrespeitado. A redemocratização ocorreu há tempo suficiente para o exercício do apagamento e a insistência no esquecimento do que significam os cerceamentos à liberdade civil. Na história da nossa República, a ditadura é cíclica: os direitos políticos de nossa população já foram suspensos três vezes. Em pouco tempo, seus horrores são escondidos por um discurso saudosista ou legitimador.

“Consta que Floriano Peixoto lançou uma ditadura de salvação nacional.” Fonte: Wikipédia.

Entende-se como vandalismo a mesma ação que com a autorização do Estado passa a ser chamada de manifestação artística. Na Avenida Paulista (SP) estão proibidos todos/as os/as artistas de rua. A cidade é território de passagem e não de jogo (como propõe Debord). Nada pode alterar as suas convenções. As estátuas são elefantes brancos, heróis sem significados. É impossível dialogar com esses pedestais.

– Mas por que tanto amor a esse cara?
– Ele é um herói.
– Você sabe quem foi ele?
– Um herói.

Pelas câmeras que nos vigiam com o argumento de nos proteger, eles veem um grupo de terroristas travestis. Umx delxs (mascaradx com uma meia, flores e correntes douradas na cabeça) escala o pedestal de pedra e lança à luz do dia (um pouco mais de 10 horas da manhã) spray no rosto do herói nacional. Três viaturas e duas motos da Guarda Municipal são mobilizadas; a abordagem é truculenta e atrapalhada. Apontam armas para aqueles que evidentemente não estão armados. Quando percebem não se tratar de pichação, não sabem explicar exatamente o porquê da abordagem, mas insistem nela. Sabem que “não é certo”, mas têm dificuldades de explicar “o que não está certo”. “Todo mundo sabe que isso é proibido”. Encostam xs performers contra o pedestal, o mesmo que, segundo sua argumentação, é preciso pedir autorização para tocar. Um guarda está mais afastado, gritando para limparmos a estátua, enquanto outro pergunta o R.G. do único de nós que consegue fazer isso. Obrigam o performer Guilherme a subir de novo e limpar o rosto da estátua, enquanto gritam que um dos motivos da proibição é o risco de acidentes, o risco do performer cair.

– A cidade é de todos. Eu não preciso de autorização para interagir com ela.
– Não venha com essa argumentação psicológica que isso não cola. Você está me chamando de burro? Pra cima de moi?

Um deles, o guarda municipal Campos (o moi), tem que ser controlado pelos demais enquanto dá de dedo na nossa cara. A guarda municipal Gislaine deixa marcas no braço da performer Mariana, depois de informar que suas perguntas são  “desacato à autoridade”.

Quando o número de civis é maior do que o de guardas, alguns dos primeiros se aproximam mais corajosamente de nós. Enquanto sofremos uma série de acusações sobre o que todo mundo sabe que é certo ou errado, são suas armas e não nossos figurinos que perturbam o povo curitibano presente. Aquele que disse “ninguém aqui é cidadão” continua afastado, de capacete. Os membros mais graduados da Guarda tentam dissuadir da abordagem os demais, que ainda têm esperanças de nos levar presos. Um inspetor explica que poderíamos fazer a mesma ação com proteção da Guarda Municipal, bastando solicitar à Fundação Cultural de Curitiba. “A guarda inteira foi mobilizada. É só pegar um papel e evitaria tudo isso”, ele nos instrui.

– Você sabe o que está fazendo? Isso é uma manifestação artística.
– Vá fazer arte na sua casa – Gislaine continuará gritando essa resposta toda vez que ouvir as palavras “arte” ou “teatro”, até ir embora.

Um morador da CEU vem nos cumprimentar. Nós o conhecemos durante o sarau do II Ato Poético, em que ele declamou um texto do Fred Roberty: “A praça é de quem fica, e não de quem passa”.

Xs ciganxs continuam seu acampamento aos pés do Marechal de Ferro.

Los Ciganos:http://losciganos.blogspot.com/2009_07_01_archive.html

entidades ciganas da Umbanda: http://entidadesciganasdaumbanda.blogspot.com/2010/01/ciganos-e-gauchos.html

situação dos ciganos hoje: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/36/vida-cigana-uma-cultura-ameacada

O Vurdón: http://www.vurdon.it/brazl.htm

artigo do professor Dimitri Fazito disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012006000200007&script=sci_arttext

“Segundo Angus Fraser (1995), os ciganos teriam chegado a Constantinopla por volta do ano 1000 d.C., sendo chamados de adsincani, um grupo de mágicos e feiticeiros viajantes, “notórios pelas predições e feitiçaria” que praticavam. Mais tarde constata-se a utilização do termo grego atsínganoi ou atzínganoi, que denomina grupos de feiticeiros e “leitores da sorte” (fortune-telling). É importante destacar que estes últimos termos parecem ser uma corrupção lingüística do termo athínganoi, o nome de uma antiga seita herética grega (id., p. 46).”

“A história do nomadismo cigano parece mais uma história de terror, torturas e perseguições sofridas por esses grupos marginalizados, constantemente segregados e expulsos das terras por onde passam. Não surpreende um “sentimento inato” para a peregrinação e as andanças, a marca está no corpo. O problema talvez esteja em querer encontrar no nomadismo uma “condição essencial” para a construção da identidade cigana, legitimando essa crença por meio de um discurso científico (ciganologia) que possibilita a perpetuação de práticas discriminatórias e racistas.”

“Como afirma o intelectual e lingüista cigano Ian Hancock,

tem sido demonstrado que a mobilidade da população romani foi o resultado de circunstâncias históricas, que na maioria dos países não deixaram outra opção aos ciganos senão as torturas e mortes, forçando as famílias ciganas a se mobilizarem em um estilo de vida nômade [e, como se não bastasse], tal mobilidade foi [então] romantizada na ficção, tornando-se o aspecto principal do estereótipo cigano. (1987, p. 130)

Muitos ciganos, na maior parte das vezes, esforçar-se-ão para passar a imagem de um Melquíades, o cigano-eterno-viajante de Cem anos de solidão, de Gabriel García Marques, corpulento e bruto, mas livre, independente e destemido.”