Acabei de testemunhar o incêndio de uma casa de campo sem mais lugar, o tipo de casa desocupada que eu acho bonita, atrás de um terreno baldio no Largo da Ordem e atrás do Estacionamento do Rosário, na 13 de Maio. Uma casa entre, que eu, vendo de costas, demorei a reconhecer.

No mormaço embaixo do céu carregado, vi a secura de uma araucária ser engolida imediatamente. Havia celulares filmando o sacrifício, as ondas de fumaça de cores diferentes, o crepitar incessante, o incêndio emoldurado pela janela, mas a maioria dos telefones que vi sacados eram de trabalhadoras do prédio anexo, que saíram aos poucos, levando os bens da empresa. Elas ligavam para alguém. O único comentário revoltante que ouvi: “ele ainda está preocupado com a araucária”, quando alguém murmurou que ela não ia escapar. Foi só quando o teto da casa estava tomado em grandes ondas que o calor do dia se tornou mais vivo entre as testemunhas.

Entendi que a categoria de testemunha, que usam para falar do público na Inglaterra, faz alguma coisa pelo que buscamos com o teatro. Porque esse é o único motivo pelo qual as passantes interromperiam sua corrida comprometida sem precisar querer que isso valesse a pena. A pena deve ser exigida de nós, não do fogo. Eu escrevo como testemunha, inclusive aqui, mas senti que o que estava fazendo diante do incêndio não era assistir. O fogo é uma força tão terrível que exige um tributo, ainda que nosso tempo seja um tributo miserável.

O silêncio entrecortado entre nós era mais religioso do que o que presenciei quando, por infelicidade, minha vizinha do sexto andar jogou seu bebê pela janela na Voluntários da Pátria poucos anos atrás. Naquele dia, ouvi o grito emitido por uma criança de oito meses que caía, um som de incompreensão e medo, mas na rua havia julgamento e revolta. O fogo permite que continuemos sós e incomunicáveis em uma estranha comunhão, porque é só diante de uma força como essa, que ultrapassa qualquer noção de direito, que compartilhamos nossa incompreensão e nosso medo.

Na caminhada para casa, ouvindo as nuvens roncarem lentamente, fiquei desejando ser abençoada logo, ainda ao longo do percurso, sentindo que teria sido uma besteira levar um guarda-chuva comigo se soubesse que iria presenciar um incêndio.

 

Sabrina Lopes, 12/12/2011