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ORLANDX[é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais.
Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira fórma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza o meu olhar – sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu!
Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras.]

Me senti envolvida por tudo que te envolvia, como se eu me envolvesse junto. Senti vontade de gritar quando vi o teu prazer, porque o prazer também era meu. Cravei nossa bandeira erótica na árvore e saímos correndo pra guerrear e territorializar a praça muito bem ocupada por nós, como devíamos e queremos fazer sempre, mas nem sempre fazemos.

O levante é a possibilidade de viver com toda nossa potencia, por um momento fugaz, sem que nenhuma criatura, instituição ou coisa guardiã da ordem nos impeça. Viver com toda potência sem permitir que esse mal nos deserotize. Territorializamos, ocupamos, erotizamos com tudo que podíamos, e fomos embora, sem saber como ficou o lugar depois de tudo. Mas sabemos dos nossos corpos, completamente territorializados pela praça Santos Andrade, por orlando, por sasha, por nós.

Tinha gente vendo. Estávamos com roupas cotidianas, fazendo coisas extraordinárias, se lambuzando com a fonte e mostrando muito amor. Fomos emocionantes. Alguns pensaram que éramos loucos. Um cara nos perguntou se era ensaio. Não queríamos que fosse. Adoramos o fato de isso ser confundido com o real, porque não é confusão, é fato. A arte aqui funciona como justificativa da loucura. Então no nosso caso parece que somos loucos e usamos a arte como pretexto pra viver do jeito que queremos, que impulsionamos. Loucos reconhecidos como artistas, já que para nós a nossa prática, entendida socialmente como prática artística, é uma possibilidade de viver nosso ideal. É a possibilidade de ocupação, de transbordamento, de transpassamento, de transgressão de gênero, de erotismo, de mutação, de embrenhamento, de rasgação.

O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano

Zé Limeira

a ação

Festa cigana ao redor da estátua do Marechal Floriano Peixoto, localizada na praça Tiradentes, Curitiba-PR, na segunda-feira dia 15 de agosto de 2011. Inaugurar o Memorial da Imigração Cigana transformando o Marechal de Ferro em Santa Sarah.

Construímos nossxs ciganxs pessoais, misteriosxs e transexualizadxs, a partir de elementos de figurinos, músicas e vídeos. Fizemos uma festa, não uma peregrinação. Caminhamos com a cachorra Susanita até a praça onde o Marechal de Ferro nos espera há mais de um século, para transfigurar através da interação o seu sedentarismo. Em troca dessa tentativa de contato, vivemos a experiência da expulsão que marca a história cigana.

– É conspurcação. Você sabe o que é conspurcação.
– Não sei não. O que é?
– É tudo aquilo que não é pichação.

Utilizamos um spray de espuma/neve artificial (comprada em casas de festas, ela não mancha, nem depreda o patrimônio histórico. Facilmente removível, evapora naturalmente em poucos minutos) como instrumento para a transfiguração da imagem do “consolidador da República”. Agora branco é o seu rosto, como era a parcela da população para quem Floriano Peixoto governou. A operação de branqueamento dos heróis nacionais foi levada a cabo pelos retratistas do ancestral ditador: é notável o contraste entre suas fotografias e pinturas. No entanto, o performer Guilherme fez isso porque teve vontade. O que promoveu foi uma desfiguração momentânea da imagem e uma intervenção direta no corpo de aço.

abordagem policial

Vivemos um momento histórico em que as manifestações em ruas e espaços públicos são crescentemente controladas pelo Estado, e o direito à livre expressão é desrespeitado. A redemocratização ocorreu há tempo suficiente para o exercício do apagamento e a insistência no esquecimento do que significam os cerceamentos à liberdade civil. Na história da nossa República, a ditadura é cíclica: os direitos políticos de nossa população já foram suspensos três vezes. Em pouco tempo, seus horrores são escondidos por um discurso saudosista ou legitimador.

“Consta que Floriano Peixoto lançou uma ditadura de salvação nacional.” Fonte: Wikipédia.

Entende-se como vandalismo a mesma ação que com a autorização do Estado passa a ser chamada de manifestação artística. Na Avenida Paulista (SP) estão proibidos todos/as os/as artistas de rua. A cidade é território de passagem e não de jogo (como propõe Debord). Nada pode alterar as suas convenções. As estátuas são elefantes brancos, heróis sem significados. É impossível dialogar com esses pedestais.

– Mas por que tanto amor a esse cara?
– Ele é um herói.
– Você sabe quem foi ele?
– Um herói.

Pelas câmeras que nos vigiam com o argumento de nos proteger, eles veem um grupo de terroristas travestis. Umx delxs (mascaradx com uma meia, flores e correntes douradas na cabeça) escala o pedestal de pedra e lança à luz do dia (um pouco mais de 10 horas da manhã) spray no rosto do herói nacional. Três viaturas e duas motos da Guarda Municipal são mobilizadas; a abordagem é truculenta e atrapalhada. Apontam armas para aqueles que evidentemente não estão armados. Quando percebem não se tratar de pichação, não sabem explicar exatamente o porquê da abordagem, mas insistem nela. Sabem que “não é certo”, mas têm dificuldades de explicar “o que não está certo”. “Todo mundo sabe que isso é proibido”. Encostam xs performers contra o pedestal, o mesmo que, segundo sua argumentação, é preciso pedir autorização para tocar. Um guarda está mais afastado, gritando para limparmos a estátua, enquanto outro pergunta o R.G. do único de nós que consegue fazer isso. Obrigam o performer Guilherme a subir de novo e limpar o rosto da estátua, enquanto gritam que um dos motivos da proibição é o risco de acidentes, o risco do performer cair.

– A cidade é de todos. Eu não preciso de autorização para interagir com ela.
– Não venha com essa argumentação psicológica que isso não cola. Você está me chamando de burro? Pra cima de moi?

Um deles, o guarda municipal Campos (o moi), tem que ser controlado pelos demais enquanto dá de dedo na nossa cara. A guarda municipal Gislaine deixa marcas no braço da performer Mariana, depois de informar que suas perguntas são  “desacato à autoridade”.

Quando o número de civis é maior do que o de guardas, alguns dos primeiros se aproximam mais corajosamente de nós. Enquanto sofremos uma série de acusações sobre o que todo mundo sabe que é certo ou errado, são suas armas e não nossos figurinos que perturbam o povo curitibano presente. Aquele que disse “ninguém aqui é cidadão” continua afastado, de capacete. Os membros mais graduados da Guarda tentam dissuadir da abordagem os demais, que ainda têm esperanças de nos levar presos. Um inspetor explica que poderíamos fazer a mesma ação com proteção da Guarda Municipal, bastando solicitar à Fundação Cultural de Curitiba. “A guarda inteira foi mobilizada. É só pegar um papel e evitaria tudo isso”, ele nos instrui.

– Você sabe o que está fazendo? Isso é uma manifestação artística.
– Vá fazer arte na sua casa – Gislaine continuará gritando essa resposta toda vez que ouvir as palavras “arte” ou “teatro”, até ir embora.

Um morador da CEU vem nos cumprimentar. Nós o conhecemos durante o sarau do II Ato Poético, em que ele declamou um texto do Fred Roberty: “A praça é de quem fica, e não de quem passa”.

Xs ciganxs continuam seu acampamento aos pés do Marechal de Ferro.