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Ela come o bolo cremoso com a mão na minha presença. Eu a presenteio com bolo cremoso para presenciá-la lamber os dedos.

Sem perceber.

Fico em dúvida se come com a mão na minha frente porque se sente extraordinariamente à vontade comigo ou se é porque esquece que estou presente.

Lambe os dedos por amor ou indiferença? É uma pergunta que não tenho como evitar.

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Ela me faz festinha com os dedos cremosos, dá um sorriso doce e me responde com a voz melosa que já ouvi fazer para outras espécies. É quando descubro que a cara que eu estava fazendo o tempo todo era essa: de cachorrinho.

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Bernart de Ventadorn

O tempo vai e vem e vira
Por dias, por meses, por anos,
Mas o deseo que me tira
A vida e dá só desenganos
É sempre o mesmo, eu nunca mudo:
Só quero a ela, mais que tudo,
A ela que só me dá tormento.

Ela ainda ri como antes rira,
A mim vêm as dores e os danos,
Pois nesse jogo a que me atira
Só ganho enganos sobre enganos
(O Amor é um jogo perdido
Quando ele é só por um mantido)
Se não houver entendimento.

A ninguém mais posso culpar
Senão a mim e a minha mente –
Só servir e nada ganhar
É coisa própria de um demente,
E se ela a mim não castiga
A loucura faz que eu prossiga:
Loucos não têm discernimento.

Eu nunca mais quero cantar
Com Eble ou qualquer outra gente,
Canções não podem me ajudar
Nem meu trovar, por mais dolente.
Tudo o que eu faça ou que eu diga
É nada para que eu consiga
Dela qualquer abrandamento.

A alegria é só aparência,
Por dentro estou estraçalhado.
Onde se viu dar penitência
A alguém, antes de ter pecado?
Mais eu peço, mais ela é dura:
Ah, se ela não tiver brandura
Eu vou morrer, já não aguento.

Mas à cruel subserviência
Me submeto de bom grado,
Pois creio, na minha demência,
Que ainda serei recompensado;
É o que nos mostra a escritura:
Um dia apenas de ventura
Vale mais do que todo um cento.

Não a abandono – é a minha vida –
Enquanto esteja salvo e são.
Mesmo depois de revestida
A espiga ao vento ainda é canção.
Por mais que seja desalmada
Jamais direi que ela é culpada,
Só lhe peço um pouco de alento.

Ah, doce dama tão querida,
Corpo bem feito, fino pão,
Ah, cara face colorida,
Que Deus formou de sua mão,
Todo esse tempo desejada,
Nenhuma outra mais me agrada,
De outro amor não me alimento.

Formosa dama bem dotada,
Quem vos formou tão bem formada
Há de aplacar meu sofrimento.

(Traduzido por Augusto de Campos. Verso, reverso, controverso. São Paulo: Perspectiva, 1978. 2. ed. Pp-89-93)

Estou disposta a entregar meus títulos, meus protocolos para essa mulher que usa calças masculinas. Ela ri dos títulos, dos protocolos. Quando ouço alguém dizer que é toda coração, penso: “é russa”. Corações se aquecem ao ver as pessoas morrerem de frio.
Estou disposta a entregar meus títulos, meus protocolos, a essa mulher que é toda coração. Porque ela ri deles.
Sou um pequeno príncipe que não sabe amar uma mulher, mas uma rosa.
Rosas são mudas. Raposas são inocentes. O sangue das galinhas derretendo a neve.
O exército branco não resistiu ao vermelho. Cantam os bolcheviques.
Seu coração se aquece ao ver um marinheiro gostoso. Ele não conhece títulos, não conhece protocolos. Não é digno de casamento.